O derrame, como é mais conhecido, resulta em consequências graves para o paciente e muda a rotina de todos em volta
Dona Edite tinha vida ativa aos 87 anos, mas hipertensão e estresse após a morte de um parente a deixaram vulnerável
As consequências do Acidente Vascular Cerebral (AVC), mais conhecido como derrame, muda a rotina da família do paciente, que, de uma hora para outra, passa a viver em função dele. É nessa hora que a pessoa acometida pela doença precisa do apoio psicológico e emocional contínuo de profissionais, familiares e amigos, conforme defende a presidente da Associação Ação AVC em Alagoas.
Solange Chimatti Syllos. Solange Syllos lembra bem das duas situações que ocorreram na vida dela e, desde então, decidiu que precisava fazer alguma coisa por aqueles que ainda não tinham informação sobre a doença e nem o seu acompanhamento. “Minha mãe e meu filho de 24 anos tiveram AVC. Na época, fiquei desesperada pelo meu filho que, tão jovem, já tinha sido acometido pela doença. Eu não sabia que a doença também poderia acontecer com pessoas de pouca idade”, explicou.
Ela lembrou que a primeira pergunta que fez quando ficou diante do médico neurologista da rede Sarah, de Hospitais de Reabilitação, foi esta: “Por que um jovem? E o especialista respondeu: ‘Dá uma olhada para a Ala de Reabilitação. São mais de 50 jovens que tiveram o AVC. Essa doença não é só de idosos, não’”.
Paciente levou três anos para se recuperar
Solange Syllos disse que a recuperação de seu filho após o AVC foi lenta.
Ele falava com dificuldade, não escrevia e teve o lado esquerdo do corpo paralisado. “Meu filho praticamente aprendeu tudo novamente. Foram três anos de muita luta, mas hoje ele está bom”, comemorou. “Hoje ele é designer”, completou.
“Minha mãe também teve AVC e está afásica e acamada. A nossa vida muda por completo, mas devemos ter perseverança e otimismo sempre”, ressaltou a presidente da Associação
Ação AVC em Alagoas.
“Temos que lutar, pensar positivo, ter o apoio da família, por isso as campanhas são muito importantes. Muita gente já sabe o que é AVC, mas antes só conheciam como derrame, era a linguagem. Atualmente, a gente percebe que as pessoas têm um conhecimento maior e sempre têm exemplos de alguém da família que já teve”, avaliou.
Hoje, Solange está à frente da Associação Ação AVC, que tem como meta esclarecer a população sobre os cuidados que podem evitar a doença, como garantir um diagnóstico precoce e como lidar com o paciente após o derrame. (A.P.O.)
‘Minha mãe está presa dentro dela mesma’
Dona Edite Casado Lordsleem Mendes, de 88 anos, teve AVC há pouco mais de um ano, e sua doença mudou toda a rotina da família. Segundo uma das filhas dela, Cátia Maria Casado Lordsleem, o acidente vascular cerebral da mãe foi de tronco, mais grave, que incapacita totalmente o paciente.
Cátia diz que sua mãe escuta, mas está presa dentro dela mesma. Ela conta que até o ano passado eram apenas três pessoas morando no apartamento: a mãe, ela e uma secretária. Hoje são mais duas pessoas para dar maior suporte à paciente. “Me acordo a cada 40 minutos, já virou rotina. No começo é mais difícil, mas depois a gente acaba se acostumando. Eu sou a plantonista da noite”, revelou.
A filha de dona Edite frisa que sua mãe é bastante saudável, porém dentro de suas limitações. “Ela se alimenta por meio de uma sonda no estômago, faz as fisioterapias diárias, tem a pressão arterial normal, faz sessões com o fonoaudiólogo, tem acompanhamento de uma nutricionista. A casa gira em torno dela. Ela era uma pessoa muito ativa, administrava todos os filhos mesmo casados e, de um dia para o outro, virou um bebê gigante”, lembrou.
Cátia disse que tudo aconteceu rápido. Ela tinha deixado a mãe em casa e, pouco depois, a secretária ligou avisando que durante o banho ela dormiu. Levada para a emergência, ela já chegou ao hospital em coma. Dona Edite passou 22 dias na Unidade de Tratamento Intensivo, entubada, e melhorou. Depois teve mais dois comas durante um ano de doença. “Foi muito difícil, mas minha mãe voltou, ela tem vontade de viver, a gente sente isso. Pergunto se ela quer passar batom e ela pisca os olhos dizendo que sim”, frisou emocionada.
A filha destacou que dona Edite era hipertensa e que o problema se agravou depois que seu irmão de 50 anos faleceu de infarto fulminante, há sete anos. “Minha mãe entrou em depressão e este foi um dos motivos que acometeu o AVC”, salientou.
O nível de estresse, pressão alta, diabetes, colesterol alto, consumo de álcool, tabagismo, sedentarismo, gordura e sal em excesso, obesidade, entre outros, são alguns dos fatores de risco para o AVC.
Campanha alerta: uma em cada seis pessoas terá AVC
Este ano, a Campanha “1 em 6” - uma em cada seis pessoas no mundo terá um AVC - será realizada novamente e, no Dia Mundial do AVC, comemorado em todo o mundo no dia 29 de outubro, esta segunda-feira, será lançado um novo slogan: “Eu me importo”.
Além de focar na educação sobre fatores de risco, sinais de alerta, estimular uma vida mais saudável e a urgência do tratamento do AVC, a campanha enfatiza a importância do cuidado pós AVC, da família, dos cuidadores e das associações de suporte aos pacientes.
Em Alagoas a campanha teve início na sexta-feira, com uma palestra no Espaço Saúde Unimed, no Corredor Vera Arruda. No sábado, a ação para a comunidade aconteceu na Fits, em Cruz das Almas.
Já neste domingo, dia 28, a campanha será realizada a partir das 12 horas, no Pátio Shopping Maceió, com palestras proferidas por profissionais da saúde sobre como prevenir, reconhecer e reabilitar pacientes. No local, será montado um espaço saúde em parceria com a Unimed e faculdades parceiras, onde serão oferecidos serviços de controle de glicemias, aferição de pressão arterial, orientação nutricional, avaliação do IMC, circunferência abdominal e distribuição de folhetos explicativos. Também será feito cadastramento dos acometidos de AVC para futuro encaminhamento à reabilitação.
Óbitos têm sido evitados
Embora o número de casos envolvendo o Acidente Vascular Cerebral (AVC), mais conhecido como derrame, assuste a população brasileira, e aponte que esta doença seja a principal causa de morte e incapacidade em adultos, esta realidade tem mudado no Estado de Alagoas nos últimos sete anos.
De acordo com dados divulgados pelo Serviço de Arquivo Médico e Estatístico do Hospital Geral do Estado, de 2004 a 2011, houve uma redução de 25,6% no número de óbitos.
Em 2004, foram registradas 417 mortes por acidente vascular cerebral; em 2011, o número caiu para 310. De janeiro a setembro deste ano, o hospital contabilizou 273 óbitos.
A presidente da Associação Ação AVC em Alagoas, Solange Chimatti Syllos, destacou como importantes as formas de reconhecimento do derrame por meio de sinais de alerta.
Para testar a fala, peça para a pessoa repetir uma frase. Para testar a força, peça para levantar o braço. Para avaliar se a boca está torta, peça para sorrir ou dizer uma frase. Percebendo algum problema em um destes movimentos, leve até a emergência do hospital mais próximo. “Tempo perdido é cérebro perdido”, diz.
Falta de carinho é um fator de risco
Uma pesquisa desenvolvida pelo periódico online Neurology e divulgada no início deste mês apontou que não dar atenção às crianças aumenta em três vezes as chances de estas sofrerem Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) na fase adulta.
O principal pesquisador, Robert Wilson, explicou que no decorrer dos anos, 257 pessoas que participavam do estudo morreram e, a partir de autópsias cerebrais, outras ferramentas de diagnóstico, os cientistas puderam determinar que cerca de 46% experimentaram um ou dois “mini-derrames cerebrais” do tipo que provocam alterações no comportamento, mas que, contudo, não causam morte.
A facilidade em desenvolver AVC não foi notada naqueles que tiveram os pais divorciados ou naqueles que alegaram ter sofrido castigos físicos, mas só entre as pessoas que confirmaram não ter se sentido queridas ou especiais na infância, explicou o estudo.
Foi significativa a correlação inclusive quando se controlou o estudo para compensar fatores como diabetes, atividades físicas, tabagismo, ansiedade ou problemas cardíacos.
‘TRAUMAS’
Grande número de pesquisas mostra que “experiências adversas na infância” são capazes de serem associadas a um alto risco, no futuro, de sofrer doenças como hipertensão, obesidades, além das condições crônicas associadas a pessoas idosas, como doenças cardiovasculares.
Um estudo mais aprofundado com uma amostragem maior será necessária para entender a causa e o risco crescente de derrame, revelou Wilson.
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